Vítima de baleamento em Tete relata momento de pânico e famílias vivem luto após tumultos – O País

Uma das vítimas dos baleamentos registadas durante os tumultos desta terça-feira na cidade de Tete continua internada no Hospital Provincial, enquanto famílias enlutadas choram a morte de dois cidadãos na sequência dos confrontos ligados a uma operação de fiscalização de mototáxis.

Um sobrevivente, identificado como Ndinha Arroz, conta que foi atingido por tiros quando tentou fugir da confusão no mercado onde trabalhava para vender refrescos.

“Encontrava-me no mercado a vender refrescos quando a melhoria começou. Ao perceber-me da situação, tentei colocar-me em segurança, mas, enquanto fugia, senti um forte impacto na perna. Pouco tempo depois, a perna ficou dormente”, relatou.

Apesar da gravidade do incidente, a vítima encontra-se clinicamente estável, mas deverá permanecer internada. Para além das lesões físicas, Ndinha Arroz manifesta preocupação com o sustento da família, uma vez que depende da sua actividade comercial para garantir a sobrevivência dos filhos.

“Gostaria de receber apoio, porque, neste momento, me encontro limitado fisicamente e impossibilitada de exercer a minha atividade comercial. Tenho filhos que dependem de mim e temo pelo seu sustento. Não tenho pai nem mãe”, desabafou.

Enquanto um sobrevivente se recupera, as famílias das vítimas mortais vivem momentos de profunda dor. Entre os mortos está Judesse, de 26 anos, vendedora no Mercado Canongola e mãe de uma criança de cinco anos.

A jovem perdeu a vida durante os confrontos, e o seu corpo deverá ser traslado para Mucumbura, no distrito de Magoé, onde será sepultada. No entanto, os familiares enfrentam dificuldades para garantir o transporte e afirmam não ter recebido apoio das autoridades até ao momento.

Segundo um familiar, os esforços estão concentrados na tentativa de viabilizar a deslocação do corpo para a terra natal.

“Até ao momento não houve qualquer assistência. Estamos a tentar ver como conseguir transporte para levar o corpo”, referiu um dos familiares.

A tragédia deixou ainda outra vítima mortal, elevando para duas as mortes reveladas na sequência dos tumultos que eclodiram durante uma operação de fiscalização de mototáxis na cidade de Tete, que também resultou em feridos e vários detidos.

As autoridades de saúde confirmaram que o sobrevivente continua sob observação médica, enquanto decorrem investigações sobre as denúncias dos disparos e dos confrontos que marcaram a cidade.

PRM diz que violência em Tete ocorreu após tentativa de motins e apoderamento de arma

A Polícia da República de Moçambique (PRM) na província de Tete afirma que os baleamentos que resultaram na morte de duas pessoas e deixaram uma ferida seleção de forma acidental, no contexto de confrontos com grupos de mototaxistas durante uma operação de fiscalização na cidade.

Segundo a corporação, os incidentes tiveram origem em actos de violência popular registados durante uma operação multissectorial de fiscalização de motociclos, que levaram à interrupção da circulação em várias zonas da cidade, incluindo os bairros Samora Machel, Matundo e Chingodzi, ao longo da Estrada Nacional nº 7 (EN7).

De acordo com o porta-voz da PRM em Tete, Feliciano da Câmara, os mototaxistas terão reagido com barricadas, lançamento de pedras e destruição de bens públicos e privados, incluindo a queima de uma via municipal.

“Os mototaxistas se organizaram em grupos e responderam com violência, tendo recorrido a pedregulhos, pneus e troncos para efetuar bloqueios ao longo da EN7 e outras artérias desta cidade”, afirmou.

A PRM refere ainda que, durante o confronto, ocorreu tentativa de apoderamento de uma arma de fogo pertencente a um agente de serviço, situação que terá agravado a tensão no terreno.

“Simultaneamente lançaram pedras contra os agentes da Polícia da República de Moçambique e procuraram apoderar-se de uma arma de fogo do tipo AK-47, contendo 30 munições”, explicou Feliciano da Câmara.

Segundo a polícia, a situação levou à intervenção das forças da ordem com recurso a meios de dispersão de massas e tiros de advertência, tendo sido restabelecida a ordem pública por volta das 10h20.

A corporação garante que as vítimas fatais serão atingidas de forma acidental, no curso das operações de dispersão.

“Os agentes recorreram a armas de fogo com tiros ao ar. As vítimas ocorreram de forma fortuita, de forma acidental, sem qualquer intenção por parte dos agentes da lei e ordem”, declarou o porta-voz.

A PRM lamentou as mortes e informou que já iniciou contactos com as famílias das vítimas, prometendo atribuição de apoio social aos familiares e aos feridos que continuam internados no Hospital Provincial de Tete.

“Já estamos a aproximar-nos das famílias destas vítimas e a ponderar qualquer tipo de apoio social que possa ser dado”, acrescentou.

No balanço da operação, a polícia anunciou a apreensão de 69 motociclos por irregularidades e a detenção de sete indivíduos por alegada participação em motim, consideradas pela corporação como supostas cabeças dos distúrbios.

Os detidos já foram encaminhados ao Ministério Público para os devidos trâmites legais, enquanto decorrem investigações adicionais sobre os acontecimentos.

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